Artigo: Desinterdição da pauta política por Adão Villaverde

Os jovens inconformados e porque não “os indignados” que ocupam as ruas do mundo já há algum tempo, tomaram os espaços públicos de cidades brasileiras, num singular processo, afirmando e reafirmando que rejeitam governos, partidos, instituições, a grande mídia, empresas, entidades, dentre outras formas de representação ou de sua delegação.

Os protestos manifestam características absolutamente comuns entre si. De um lado, se movem revelando uma enorme insatisfação com um modo de vida altamente sacrificante imposto pela tragédia urbana diária de viverem assardinhados em transportes coletivos caros , de baixa qualidade e de horários incertos, ou no caos da falta de mobilidade, oscilando numa corrida só, entre casa, emprego e estudos, restando escasso tempo para o sono e muito menos para o lazer.

De outro, mesmo com os avanços das políticas públicas do Estado brasileiro, registram que a saúde, a educação, a segurança, a habitação, o meio ambiente e a mobilidade urbana poderiam estar em muito melhores condições, se recursos públicos não fossem drenados para investimentos privados da Copa, cujos jogos ainda inviabilizam a presença do povo por preços completamente inacessíveis. Isto por si só justifica tamanhas mobilizações e até podemos interrogar: porque não aconteceram antes?

Mas a grande novidade destas movimentações, envolvendo milhões de corações e mentes no Brasil e no mundo, são as conexões entre o “espaço público do ciberespaço” e o espaço público urbano real. Onde as ruas fazem emergir das trágicas condições urbanas de nossas grandes metrópoles, aquelas dúvidas a dividir, suas inquietudes, suas esperanças, suas indignações e as preocupações necessárias com seu futuro. Identificando as cidades, cada dia um pouco mais, como gelatinosas áreas de insegurança, de incerteza, de violência e de ausência de perspectivas.

Isto revela que os modelos teórico-práticos que norteiam a sociedade, e orientaram e embalaram nossa geração, são insuficientes para explicar o presente e antecipar o futuro, num acelerado cenário de revolução técnico-científica na era da microeletrônica e da nanotecnologia.

Foi em sintonia com as vozes da ruas pedindo mudanças que a presidenta Dilma apresentou os pactos pela qualidade do transporte público, pela saúde, pela educação e desintertidou a pauta da reforma política, dando vazão aos anseios dos movimentos, através da proposta do plebiscito e da pressão sobre o Congresso. Evidenciando que o que parecia impossível se mostra possível, através da luta e da mobilização das ruas.

Por isto é gratificante ver a geração do livre espaço público da internet nos espaços reais dos voláteis contornos de nossos frágeis territórios, materializando sonhos e desejos e, quem sabe, estimulando consciências utópicas, que não terminam confundidas apenas com medíocres desejos de consumo. Que estes protestos aprofundem este caminho!

 

* Engenheiro, professor e deputado estadual (PT/RS)