Artigo: CUBA E O FIM DO APARTHEID por Lúcio Costa

Por ocasião dos funerais de Mandela, os jornalões e televisões do monopólio das comunicações destacaram em seus noticiários o aperto de mão trocado entre Obama e Raul Castro e, as fotos que o mandatário norte-americano tirou dos primeiros-ministros David Cameron, do Reino Unido, e Halle Thorning-Schimdt, da Dinamarca. Nenhuma palavra sobre a calorosa recepção e as palmas dadas pela multidão por ocasião do discurso de Raul.

O silêncio não é casual, pois falar das razões do apreço que Cuba goza entre os sul-africanos arrisca trazer à luz do dia o papel da Revolução Cubana no fim do regime de apartheid.

Em 1975, um mês antes da proclamação da independência tropas do regime racista sul-africano invadiram Angola. Atendendo ao apelo do MPLA (Movimento Popular de Libertação de Angola) Cuba enviou 36.000 homens e mulheres que, somadas às tropas angolanas conseguiram deter a invasão militar do regime do apartheid. Em março de 1976 o exército sul-africano se retirou de Angola.

Em Julho de 1987, a África do Sul se aproveita da maré conservadora deflagrada pelos governos Thatcher e Reagan e, tornou a invadir Angola. Desta feita, para tentar salvar seus comparsas da UNITA, organização financiada e treinada pela CIA, de serem derrotados pelas forças armadas angolanas.

Na oportunidade, o Conselho de Segurança da ONU exigiu que as forças armadas sul-africanas se retirassem de Angola. No entanto, os Estados Unidos conseguiram que não fossem aprovadas sanções contra a África do Sul. Na prática, se tratava de uma resolução feita de modo a permitir a destruição das Forças Armadas Populares de Angola e o fortalecimento do controle daquela região da África pelo regime do apartheid.

Na época, as bem treinadas e armadas forças militares do apartheid preparavam um ataque com o objetivo de aniquilar as tropas angolanas estacionadas na localidade Cuito-Cuanavale, o que teria feito devastador sobre o governo de Angola.

Nesse cenário, atendendo ao pedido do governo angolano Cuba enviou dezenas de milhares de voluntários internacionalistas para Angola. Depois de algumas semanas de pesados combates o exército sul-africano foi derrotado em Cuito-Cuanavale.

Vencedoras em Cuito-Cuanavale, as tropas angolanas, cubanas e da SWAPO (Organização do Povo do Sudoeste Africano, movimento que lutava pela independência da Namíbia) marcharam para a fronteira de Angola com aquele país – a época ocupado pela África do Sul.

Como resultado das vitórias militares angolanas e cubanas, o regime do apartheid se viu obrigado a reconhecer a implementação da Resolução 435 do Conselho de Segurança das Nações Unidas que exigia a independência da Namíbia.

Desta forma, Cuba mudou o curso da história da África, pois a batalha de Cuito-Cuanavale trouxe consigo a independência da Namíbia e, a consolidação do processo de fim do regime de segregação racial na África do Sul.

Participaram das ações internacionalistas de Cuba em Angola cerca de 400 mil cubanos e mais de 2.000 mil morreram.

Em 1991, pouco após sua libertação depois de 28 anos de prisão Nelson Mandela foi à Cuba. Em Havana, o líder negro sul-africano disse que, “a derrota esmagadora imposta ao exército racista em Cuito-Cuanavale foi uma vitória de toda a África! Sem a derrota de Cuito-Cuanavale a proibição que pesava sobre nossas organizações não teria jamais sido suprimida! A derrota do exército racista em Cuito-Cuanavale permitiu que hoje eu estivesse aqui! Cuito-Cuanavale transformou a luta de libertação nacional no continente, no nosso país a luta contra o flagelo do apartheid! A derrota decisiva de Cuito-Cuanavale modificou a correlação de forças na região e reduziu substancialmente a capacidade do regime de Pretória na desestabilização dos países vizinhos”.

Em síntese, nas palavras de Mandela: “Cuito Cuanavale foi à viragem para a luta de libertação do meu continente e do meu povo do flagelo do apartheid”.

Em 1994, depois de 46 anos teve fim o apartheid e, Nelson Mandela foi eleito presidente.

Em dezembro de 2005, Thenjiwe Mtintso, embaixadora da África do Sul em Cuba afirmou,”hoje a África do Sul tem muitos novos amigos. Ontem estes amigos referiam-se aos nossos líderes e aos nossos combatentes como terroristas e nos acossavam a partir dos seus países sempre que apoiavam a África do Sul do apartheid… hoje esses mesmos amigos querem que nós denunciemos e isolemos Cuba. A nossa resposta é muito simples – é o sangue dos mártires cubanos e não destes amigos o que corre profundamente na terra africana e nutre a árvore da liberdade na nossa Pátria”.

Detalhe: somente em 2008, depois de já ter sido presidente da África do Sul e quase aos 90 anos, Mandela foi retirado da lista de pessoas catalogadas pelas agências de segurança norte-americana como terroristas.