Artigo: Gerdau, o preconceito da elite e a esvaziamento da política – Por Ary Vanazzi*

Na entrevista concedida pelo empresário Jorge Gerdau Johannpeter na edição de Zero Hora do último domingo (4/5), fica explícita a visão preconceituosa de uma elite que sempre se beneficiou e se locupletou das estruturas do Estado em relação à classe trabalhadora. Na inaceitável visão de Gerdau, os gaúchos são “acomodados”, mas que acomodação é essa se o IBGE registrou em outubro de 2013 que o desemprego na região metropolitana de Porto Alegre era de 3%? Ou como lembrou o governador Tarso Genro em sua conta no twitter, o estado com o maior número de matrículas no Pronatec, aonde os gaúchos e as gaúchas, principalmente os mais jovens, buscam se qualificar para o mercado de trabalho?

Acostumado a ver a sociedade de cima, de onde recebe os mais generosos benefícios estatais, Gerdau demonstra todo o seu elitismo e preconceito de classe. Assim como tem direito ao trabalho, tem o povo gaúcho também o direito ao lazer e as suas horas de folga, aonde possa reunir a família para um churrasco e torcer pelo Grêmio ou Internacional.

Gerdau foi um fiador da política neoliberal implementada no Rio Grande do Sul, em especial nos governos de Britto e Yeda. Esse é o modelo de Estado defendido por Gerdau na entrevista à ZH. O povo gaúcho viu na prática os efeitos dessa política: endividamento do estado e o sucateamento dos serviços públicos.

É pouco coerente com a prática à posição de Gerdau na defesa de certa austeridade do Estado, afinal como lembrou o jornalista Marco Weissheimer em recente artigo, em 2013 através do Fundopen (Fundo Operação Empresa), a Gerdau Aços Longos S/A foi beneficiada com um investimento de quase meio bilhão de reais em um projeto que previa a criação de dez empregos. Gerdau também diz à ZH que a política atrapalha a gestão, porém se esse é o pensamento de Gerdau, qual o motivo de em 2010 a Gerdau Comercial de Aços S/A ter doado, segundo dados do TSE, mais de 14 milhões de reais para campanhas políticas, dos mais variados partidos?

No fundo, o discurso de Gerdau é um discurso de enfraquecimento da política e dos agentes políticos democrática e legitimamente eleitos pelo voto popular para conduzir os rumos do próprio povo. Gerdau defende uma democracia sem representatividade, sem povo.

É um discurso que precisa ser combatido e a melhor forma de combater essa é visão expressa pelo discurso de Gerdau é democratizar as estruturas do Estado, aproximar os governos da população criando canais de diálogo eficientes e transparentes, e lutar por uma reforma política que afaste o poder econômico das eleições, gênese da corrupção nas estruturas do Estado. O povo gaúcho não é um povo acomodado e necessita cada vez mais, como diria o ex-governador Olívio Dutra, ser sujeito e não objeto da política.

 

*Ary Vanazzi é presidente do Diretório Estadual do PT/RS