Artigo: O medo do discurso – Por Raul Pont

O editorial da Zero Hora, de 18 de maio, O discurso do medo “critica o PT por usar a mesma estratégia de seus opositores para se manter no poder”. Isto é, critica a inserção na TV e rádio do programa partidário sobre o desemprego e as políticas de assistência social vistas a partir do olhar de pessoas que estiveram em situação oposta nos últimos tempos. Ex: quem hoje está empregado se enxergando no momento em que estava desempregado. Ou outro, sobre as condições de trabalho e apoio para produzir com crédito, financiamento de veículo, educação e a situação anterior.
A essência da crítica: o PT estaria fazendo exatamente o que criticou na farsa contratada pelo PSDB com a atriz Regina Duarte, que abria sua fala dizendo: “Estou com medo”. No editorial de domingo, mais uma vez, Zero Hora deturpa os fatos e só expressa seu facciosismo, sua parcialidade e seu ódio ao Partido dos Trabalhadores! Vamos aos fatos:

Primeiro argumento: em 2002, toda a grande mídia brasileira não produziu nenhuma crítica,nenhum senão ao “depoimento” da Regina Duarte. Contra Lula não era pecado, portanto, silêncio e apoio. Agora, todos fizeram coro crítico ao  pronunciamento e todos abertamente apostaram, naquela oportunidade, nos editoriais e na manipulação das matérias, na candidatura Serra. Agora, numa orquestração fantástica (ZH, Correio Brasiliense, Estadão, FSP, Globo, etc), todos tiveram a mesma interpretação do programa petista e ressaltaram a incoerência pela crítica feita em 2002 ao marketing tucano.

Segundo argumento: não há comparação entre os fatos. Regina Duarte criava um preconceito contra Lula, não tratava nem comparava políticas públicas. Afirmava que desconhecia Lula e que seu discurso mudara muito. Mais: mentiu, descaradamente, ao dizer que seu “medo era da inflação desenfreada de 80% ao mês”, que viria com a eleição do Lula. O programa atual do PT falava de políticas que geram emprego e políticas que geram desemprego. E estas não são “políticas de Estado” como diz o editorial da Zero Hora. São políticas de governos, que são políticas de partidos, que são diferentes e geram situações diferentes! Aqui no RS, Olívio Dutra (PT) saiu do governo com o piso regional em 30% acima do salário mínimo. Quando Yeda Crusius (PSDB) saiu do governo em 2010, o piso regional voltara a ser igual ao salário  mínimo. Ou seja, são políticas diferentes com resultados diferentes para a economia e também para setores distintos da população. Com FHC, emprego e salário eram opostos aos atuais porque os governos e Partidos são diferentes. Ali havia   arrocho salarial e elevado desemprego.

Terceiro argumento: o jornal também mente ao afirmar que nós criamos uma falsa interlocução no debate. Quem tem dito que os governantes têm que ter coragem de “tomar medidas impopulares” e que “a política salarial atual não permite acumulação para investimentos” não somos nós, mas os candidatos Eduardo Campos e Aécio Neves, bem como seus assessores economistas, conhecidos neoliberais como Eduardo Gianetti e Armínio Fraga.

Quarto argumento: ZH aproveita também para misturar assuntos e manipular opiniões, ao dizer que além do Programa de TV, preocupam também os “arroubos nacionalistas” do presidente do PT, Rui Falcão, que “só contribuem para assustar investidores”. Ora, qual foi mesmo a declaração do presidente Falcão? Numa entrevista à agência de notícias Bloomberg sobre um conjunto de temas, entre eles sobre o controle de capitais, o presidente Rui Falcão disse que, no caso do segundo mandato, “é preciso conter o investimento meramente especulativo e isso se faz com controle apropriado do capital”. Qual o erro da frase, qual o “arroubo nacionalista”? Para o país interessa manter a política do FHC que, no segundo mandato, praticamente zerou a taxação e o controle sobre a remessa de lucros? Isso, hoje, é um dos principais motivos das dificuldades que vivemos no balanço de pagamento do país.

Quinto argumento: por fim, o editorial conclui com a tergiversação de que não há legitimidade do Programa petista de TV porque políticas públicas conquistadas se transformam em ganhos perenes, sem volta. Daí a crítica ao PT. Mais uma falsidade. Não há nenhuma segurança, nenhuma garantia de que as políticas sociais de um governo, em caso de vitória da oposição, sejam mantidas. Essa perenidade, sim, não é democrática. Assim como o exemplo do piso regional do RS, poderíamos elencar um grande número de políticas radicalmente opostas entre o que pensamos e os tucanos. O papel e o número das Universidades federais, a incomparável distância em relação às Escolas Técnicas Federais, o papel do Estado e das empresas públicas, a política salarial e a relação com a Previdência Pública. Faltaria espaço para cotejarmos políticas públicas que nos opõem aos tucanos e neoliberais e reafirmar nosso direito de compará-las nos programas eleitorais. É a disputa política permanente e o cotejamento das propostas e seus resultados que permitem à população tomar conhecimento das diferenças entre os vários partidos. Fazemos isso abertamente, democraticamente, sem o subterfúgio da falsa neutralidade da mídia brasileira. O editorial não consegue esconder o medo do discurso, do contraditório, do conflito que faz a democracia crescer e se consolidar.

*Raul Pont é deputado estadual do PT/RS e ex-prefeito de Porto Alegre. Pronunciamento feito na tribuna da Assembleia Legislativa em 21/05/2014