“Irada com derrota, oposição pode favorecer invenção de Berlusconi caboclo” por Tarso Genro

 

Se o mundo dos partidos e a esfera da política forem destruídos, o que seguirá depois de Dilma não é Aécio nem Marina, mas algum Berlusconi caboclo Tarso Genro, governador do RS, sobre a responsabilidade da oposição

O país está na expectativa da formação do ministério da presidente Dilma, cuja vitória no segundo turno enraiveceu setores significativos da alta classe média, nas regiões mais desenvolvidas do país. E decepcionou todos os que professaram a ideia de um retorno imediato aos padrões de governança econômica e social experimentados pelo país nos governos de Fernando Henrique Cardoso.

As movimentações da direita política e dos setores neoliberais e “liberais” – que são contra privilegiar emprego e distribuição de renda como trampolins para sair do baixo crescimento- estimulam a ideia do impedimento de um governo que não começou e, até mesmo, a arrogância golpista, desta feita de corte militarista, não meramente midiática.

A operação Lava Jato foi logo apropriada pela grande mídia oposicionista e pela oposição partidária como instrumento de revide pela vitória de Dilma, na expectativa de que o inquérito se torne um grande fato político capaz de varrer a esquerda, o PT, e retirar o PMDB da base do governo.

Uma importante iniciativa do Ministério Público e da Polícia Federal, que ajudará a melhorar a Petrobras e o país, passa a ser, assim, monopólio dos derrotados.

Cometem um erro grave, por dois motivos fundamentais: primeiro, todos lembram das denúncias de Paulo Francis, “arquivadas” pelo governo da época, que acusava a existência de pesados esquemas de corrupção na estatal. Logo, a corrupção na Petrobras é histórica e o que deveríamos celebrar é que ela vem sendo combatida.

O segundo motivo é que se o mundo dos partidos e a esfera da política forem destruídos, o que seguirá, depois de Dilma, não é Aécio nem Marina, mas algum Berlusconi caboclo, inventado pela antipolítica que certamente dará meia-volta no combate à corrupção no país.

Além dos duros debates que podem e devem ser travados dentro da democracia, a tentativa de deslegitimar o resultado das urnas – sem que o mandato seja pelo menos exercido para fundamentar qualquer radicalização – pode deslegitimar também a própria oposição.

Com isso, pode cortar os canais políticos que sempre vinculam oposição e governo, deslocando a disputa política feita através de denúncias e argumentos para “disputas de rua”, onde o que geralmente impera não são vias argumentativas, mas as vias de fato.

Não é só o ministério da presidente, portanto, que gera expectativas, mas também qual será a postura da oposição irada com uma derrota, para ela, imprevista, quando o novo governo estiver montado e começar a trabalhar.

Nestes momentos é bom sempre lembrar da Itália de Berlusconi, das “marchas da família”, que precederam 64, e da crise da República de Weimar, que redundou na eliminação da política quando os adversários passaram a ser inimigos a serem eliminados.

Presidente, nomeie logo os seus ministros fundamentais e substitua, para a oposição, o palco imprevisível do ódio de quem perdeu, pelo teatro previsível do republicanismo democrático.

Raiva e expectativa também são elementos da política, que podem ser diluídos dentro da democracia, com inventividade, senso de oportunidade e um olhar de longo alcance. Aposto que é o que a ampla maioria dos brasileiros de todas as classes espera do governo neste momento.