A saída para o Rio Grande do Sul está no próprio Estado, por Claudir Nespolo*

Com o propósito de contribuir para o debate sobre a retomada do desenvolvimento do Estado, ZH solicitou a lideranças empresariais, sindicais e políticas artigos analíticos e propositivos a partir da seguinte questão: O Rio Grande tem saída? Como? A série, iniciada em junho com opiniões de representantes de entidades empresariais, está sendo retomada agora com sindicalistas e lideranças classistas. Em agosto, será a vez de parlamentares e, em setembro, de governantes.

Não é a primeira vez que o Rio Grande do Sul depara com uma crise econômica. As medidas adotadas pelo atual governo também não nos são estranhas, todas elas já foram testadas e os resultados foram desastrosos. Cortar gastos em áreas prioritárias como saúde, educação e segurança; penalizar os servidores do Estado; privatizar o que restou do patrimônio público; eximir-se de aprofundar as alternativas escutando os diferentes sujeitos políticos e econômicos; permitir que a dinâmica do mercado determine a política econômica e transferir o ônus da crise para o conjunto da sociedade, sobretudo, para aqueles que vivem do trabalho, seguramente nos conduzirá ao precipício.

O Rio Grande do Sul é um dos entes da federação mais bem posicionados. Dispomos de uma matriz produtiva que progressivamente se diversifica e amplia suas bases em áreas importantes. Temos cadeias produtivas em vias de consolidação e com grande capacidade de agregar tecnologia. A nossa agropecuária é pujante. Há uma rede de universidades, públicas e privadas, ansiosas por fazer parte de um processo pactuado de desenvolvimento. Temos lideranças de diferentes matrizes políticas com in- fluência no cenário nacional. Somos uma região que ainda não aprendeu a fazer uso estratégico da sua posição geo- gráfica fronteiriça. Temos instituições com forte tradição democrática. Finalmente, e o mais importante, dispomos de um povo aguerrido e de uma classe trabalhadora com razoável grau de escolaridade e profissionalização. As saídas para o Rio Grande do Sul não virão apenas de consultorias especializadas, de técnicos fechados em quatro paredes, nem de medidas unilaterais que penalizam a sociedade.

A principal porta de saída para a crise do Estado é fortalecer a democracia. É muito medíocre uma gestão balizada pelas contas a pagar. Devemos focar nas nossas potencialidades e ativos para obter uma expansão financeira, e não no superdimensionamento das debilidades com a intenção de propagandear saídas indigestas. Cada vez mais, fica claro que a crise que assola os povos de boa parte do mundo não é de produção de riqueza, mas da sua distribuição. Isso vale para o nosso Rio Grande. Somos um Estado rico, todavia os níveis de concentração de riqueza e de lucratividade são cada vez mais insustentáveis. Não são os salários dos trabalhadores, nem as nossas fragilidades relacionadas com infraestrutura e nem as demandas sociais que temos que travam o nosso desenvolvimento. Pelo contrário, olhadas sob outro prisma, serviriam de alavanca para o crescimento econômico. A concentração de riqueza e a supremacia do capital financeiro são o que inviabilizam.

O Estado democrático é o único ator com capacidade de conduzir para uma saída duradoura e sustentável. É imprescindível combater a renúncia fiscal que premia os endinheirados. Precisamos implantar um sistema tributário que possibilite maior justiça fiscal. Hoje, os trabalhadores são penalizados com impostos naquilo que consomem e nos salários, isso é uma aberração. Enquanto isso, os empresários são beneficiados com desonerações e baixa tributação. Em termos tributários, somos um dos países mais injustos do mundo.

Nenhuma região ou país se desenvolveu movido apenas por visões de curto prazo. Nesse sentido, temos que implementar efetivos diálogos sociais capazes de sobreviver às mudanças políticas do nosso calendário eleitoral. O nosso atraso econômico, se comparado com outros países, também se deve à mentalidade colonizada das nossas elites, que se acostumaram à subserviência, ficando no banco de reservas do desenvolvimento econômico. Por isso, não temos empresas que investem em tecnologia, que se projetam internacionalmente.

O caminho do desenvolvimento também é prerrogativa de experiências empreendedoras organizadas localmente, isso significa que os municípios e as forças vivas regionais precisam se mobilizar em torno de uma agenda positiva de desenvolvimento. O Rio Grande do Sul tem saída, ouvindo mais o seu povo e mudando o recei- tuário do ajuste fiscal.

Presidente da CUT-RS*

Publicado em ZH : 21 de julho de 2015 | N° 1823