FSP: 25 anos de Integração Latinoamericana, por Raul Pont*

O articulista Percival Puggina, em ZH de 5/7/15, dedica-se a denunciar o Foro de São Paulo (FSP) como um novo “perigo vermelho” que ronda o Brasil e as Américas. O título é alarmante: “comunistas sem fronteira” que estariam contaminando o continente com suas ideias abomináveis. E, é claro, o principal responsável por isso é o PT. Diz o escritor Puggina: “É intolerável que as afinidades e estratégias políticas de um único partido, conectado com os interesses de organizações comunistas internacionais, determinem nossa política externa e não passem pelo crivo das instituições da República”.

Em que mundo vive esse cidadão? Seu reacionarismo é tão profundo que ainda não saiu da Guerra Fria, do seu pior momento dos anos 40 e 50 do século passado. Para afirmar uma sandice dessas deve achar que Putin é comunista e a Rússia criou uma nova Internacional para acabar com o “mundo livre”.

Como velho arenista, assessor durante anos na Assembleia Legislativa do PFL e do PDS, sucedâneos do partido que sustentava a ditadura, o agora escritor Puggina apresenta-se como um neutro observador político a nos avisar dos “perigos” que nos espreitam.

O santuário neoliberal de Davos (Suíça) reunir todos os anos a nata dos bilionários, chefes de Estados, chefes de governos, dirigentes partidários para difundir e pregar o “pensamento único” do neoliberalismo não tem nenhum pecado nem consequências para os povos. O Foro de São Paulo não pode reunir seus integrantes.

FHC e a cúpula tucana podem ir aos EEUU, como foram agora em maio, reunir com o Partido Democrata, fazer o tradicional beija mão com os Clinton e afinar a defesa dos Tratados de “Livre” Comércio em detrimento do Mercosul. O Foro de São Paulo não pode existir.

Os partidos democratas-cristãos e os partidos liberais e de centro-direita na Europa, assim como os partidos social-democratas, todos tem seus foros internacionais e seus encontros periódicos para reflexão, troca de experiências e daí resultam também encaminhamentos comuns. Sem isso não haveria a União Europeia, por exemplo. Mas, para o Sr. Puggina, o Foro de São Paulo não pode e a culpa é do PT.

Por sinal, o escritor deveria preocupar-se mais com as ideias, a ideologia e o programa do partido que ajudou a criar – o PFL – pois, pelo que sabemos esse já fechou as portas e hoje sobrevive escondido através do nome fantasia “democratas”, cujo programa e prática política nada tem a ver com a denominação.

O Foro de São Paulo foi criado há 25 anos pela iniciativa do PT e outros partidos do continente para romper com a tradição colonialista dos nossos países que olhavam mais para a Europa do que para os vizinhos. Nasceu para o conhecimento mútuo, a troca de experiências, a construção de um aporte comum para os problemas comuns que tínhamos na América do Sul e Caribe.

Hoje, o FSP aglutina mais de uma centena de partidos, movimentos políticos e frentes partidárias do México ao Chile. São representantes políticos de 26 países da América do Sul e do Caribe, das mais diversas origens, com a pluralidade de um continente que mesclou experiências das metrópoles, dos distintos processos de industrialização e urbanização e de uma enorme variedade de experiências das culturas originárias. Para sossego do Sr. Puggina, em mais de uma centena de partidos, uns 15% possuem a definição de comunistas e quanto a eles não há nenhum preconceito.

O PT não é o “único” brasileiro. Sete agremiações partidárias do Brasil são membros do FSP. Do pequeno Uruguai são 13, da Argentina são 12 partidos e movimentos, do Chile e do Paraguai são 8. Portanto, nada a ver com monolitismos e pensamentos únicos.

O FSP, é claro, possui um conjunto de identidades entre os seus membros na defesa da democracia, da soberania nacional dos seus países, da busca da integração e cooperação entre nossos povos e governos e na construção de projetos comuns de apoio e desenvolvimento mútuos. O Mercosul é um exemplo disso. Do que já se avançou e do muito que ainda há para avançar e construir.

Sem querer deixar mais preocupado e nervoso o Sr. Puggina, o FSP realiza mais uma edição no final de julho, comemorativa de seus 25 anos de existência, na cidade do México, tendo como anfitriões o Partido da Revolução Democrática (PRD) e o Partido do Trabalho (PT) daquele país.

Raul Pont/ professor e dirigente petista

Julho/2015