Mesa de Convergência debate democracia e golpismo com líderes partidários

Rui FST

FSMT – 15 anos

Mesa de Convergência DEMOCRACIA E DESENVOLVIMENTO EM TEMPOS DE GOLPISMO E CRISE
Por Stela Pastore

Somar forças para evitar retrocessos é consenso entre dirigentes que debateram democracia e desenvolvimento em tempos de golismo e crise

A necessária reação organizada na defesa do processo democrático e combate ao crescimento da intolerância foi unânime nas falas dos palestrantes da segunda Mesa de Convergência “Democracia e Desenvolvimento em Tempos de Golpismo e Crise”  do Fórum Social Mundial Temático, na tarde desta quarta-feira (20/01), no auditório Araújo Vianna, em Porto Alegre.

O ex-presidente do PSB, Roberto Amaral, o senador Roberto Requião (PMDB), o vice-presidente nacional do PCdoB, Valter Sorrentino, o presidente do Partido dos Trabalhadores, Rui Falcão,  o integrante da Fundação Leonel Brizola, Carlos Michaelis, o dirigente do movimento negro, Gilberto Leal, destacaram a importância do Fórum no fortalecimento de um movimento nacional com coragem para reconhecer  erros e acertos, avançar nas conquistas sociais e frear retrocessos civilizatórios.

A representante do Equador, Milagros Gacon, denunciou a perseguição dos movimentos sociais e a subração de direitos sociais em seu país.

A plateia do auditório Araújo Vianna entoou palavras de ordem como “Não Vai Ter Golpe, vai ter luta”, “fora Cunha”, “fora Beto Richa” e apoios ao fortalecimento da Frente Brasil Popular durante as mais de duas horas de reflexões.

Esmagar o ovo da serpente
“Há uma tentativa de aniquilamento das forças populares e de esquerda deste país. Vivemos o mais perigoso e forte esforço das forças de  direita de retomada do Estado e da sociedade pior que 1964”, denuncia o jornalista e professor Roberto Amaral. “Há uma formulação de um sistema proto-facista que se desenvolve e se articula na sociedade brasileira com a colaboração intensa e impiedosa diária dos meios de comunicação de massa”, analisa Amaral que deixou a presidência do PSB quando o partido definiu apoiar o candidato Aécio Neves em 2014.

Amaral aponta que este movimento é dirigido pelos que comandam os partidos de centro e de direita, as associação do poder econômico que querem destruir a política, os políticos e  a atividade civil. Para ele, a ofensiva contra o mandato da presidenta Dilma Rousseff é a menor das ameaças frente à intenção real de destruir estruturas democráticas e conquistas sociais. “Querem é destruir o Partido dos Trabalhadores, todos os partidos progressistas, querem destruir a vida social. Não se contentarão com a destruição de Dilma e do PT. Em seguida tentarão aniquilar a maior liderança popular deste país que é o presidente Lula”, alerta.

O autor do livro “A serpente sem casca” defende a tese de que o experimento brasileiro das forças conservadoras pretende manter uma estrutura legal para interpretar a lei sob seus interesses, apostando numa democracia de baixa intensidade, onde as conquistas populares são revistas, se constrói um governo anti-povo, anti-nacional, alimentando uma sociedade autoritária e intolerante.

Para Amaral, a Frente Brasil Popular (FBP) pode ser uma das grandes alternativas para a resistência popular ao projeto fascista. Opinião compartilhada pelos demais palestrantes. “Nosso projeto é a construção da resistência organizada a partir da unidade popular brasileira. A FBP reúne instâncias de toda a sociedade e deve ser fortalecida em todos os estados da federação e organizada em todos os municípios. A direita só tem uma coisa: o povo organizado. O ovo da serpente não tem casca. É imperioso no Brasil esmagar o ovo da serpente da ditadura fascista”, finalizou.

Nova agenda de crescimento
Integrante da Fundação Maurício Grabóis, Walter Sorrentino entende que a ofensiva golpista foi contida, mas os ataques serão duros e prolongados pelos que perderam as eleições por quatro vezes consecutivas, alimentados pela criminalização da política, amparada pela mídia colaborando com vazamentos seletivos da Operação Lava-jato, resultando em condenações prévias para atingir lideranças de esquerda.

O dirigente do PCdoB defende que é preciso enfrentar a escalada golpista com uma frente progressista unida que supere controvérsias pontuais,  disputar os rumos do governo para um novo estágio e construir uma agenda convergente de crescimento para uma nova etapa do projeto nacional soberano de desenvolvimento. “Os avanços exigem reformas estruturais como a da mídia, política, tributária, educação e outras  que só são viáveis com mobilização e determinação do governo”, concluiu.

União nacional contra o retrocesso
Para o pedetista Carlos Michaellis, da Fundação Leonel Brizola o FSM é um símbolo de resistência e consolidação democrática. “Na ditadura encontros como esses não era permitidos. Devemos ter unanimidade com os valores da democracia que nos custou muito caro. Não pode haver nenhuma brecha para retrocessos”, conclamou. Em dezembro, a direção do partido emitiu nota contra a abertura do processo de impeachment da presidenta Dilma pelo presidente da Câmara, Eduardo Cunha. “A democracia é pedagogia diária que se expressa em todos os espaços a partir de nossos argumentos”, concluiu.

“Não se conquista democracia pelo ato do voto, se garante com luta, com enfrentamento, na permanente e cotidiana atividade das pessoas e movimentos. Assim se avança, como no mundo todo, como na independência de vários países africanos”, comparou o ativista Gilberto Leal, da direção da Coordenação Nacional de Entidades Negras (Conen). “Nenhum passo atrás contra o golpismo e a redução dos direitos. Estamos defendendo a cidadania e o direito do povo brasileiro”, conclui.

Roberto Requião
“Defender hoje a legalidade democrática assegura o espaço da democracia das eleições, um  projeto da tolerância, justiça social e desenvolvimento econômico, resumiu o senador peemedebista Roberto Requião.
Ele recuperou as reações do capitalismo aos avanços do bem estar social em várias nações ao longo do século XX e agora.

“Há uma forte reação do conservadorismo global a partir de 2011 expressa no fanatismo religioso, anticomunismo, xenofobia, austericídio fiscal, entre outras demonstrações. Este é o momento em que vivemos mais guerras simultâneas e tentativas de golpe desde a II Guerra. São manadas movidas pelo ódio. É fácil manipular pessoas pelo ódio e intolerância que só levam à guerra e a destruição. A humanidade não pode progredir sem tolerância e utopia”, conceituou.

Para o ex-governador do Paraná, o  Brasil sofre uma crise bruta com a incapacidade da nação de reconhecer a forte intervenção estrangeira na política e da economia e com limitações de se proteger contra isso. “Vivemos uma crise, erros do governo, mas o que vemos é a tentativa definitiva do avanço do neoliberalismo frente ao avanço no mundo do bem estar social”, identificou.

“Tentarão nos dividir, manipular, e simular todos os ódios políticos e perversão para desmoralizar o conceito de nação brasileira. Nossa bandeira deve ser de um Estado de bem social aberto, tolerante e generoso, traduzindo o desejo de todos os povos oprimidos e defender sempre soluções pacificas nos conflitos”, finalizou uma das vozes destoantes do PMDB nacional.

Requião disse que a tese do impeachment é ridícula. É dizer que tirar dinheiro de um  caixa do Estado e colocar num outro para suprir programas sociais é motivo? Não há sanção legal para não cumprimento de metas. No mais é golpe a serviço do capital internacional, resume. “Defender hoje a legalidade democrática assegura o espaço da democracia das eleições, um  projeto da tolerância, justiça social e desenvolvimento econômico, resume o senador.

Rui Falcão:

“O que está em jogo é a questão democrática em que se nota o desejo de destruir o Estado de Direito antes que prospere”, analisa o presidente nacional do PT, Rui Falcão. Referiu expedientes estranhos que vem sendo aventados como a teoria do preposto, em que os partidos seriam condenados se algum de seus mandatários cometa ilegalidades, entre outras manobras em instituições públicas para tentar fragilizar todo o campo democrático e popular.

Para ele, a democracia está em risco porque  setores do aparato estatal foram capturados pela direita. Sobre as manifestações políticas recentes Falcão observa que dois setores se mostram: “os que não desejam bloqueio da ascensão socioeconômica  de camadas populares e os que defendem corte de gastos, coniventes com a corrupção e que se apresentam como guardiães da moralidade pública, sonegadores contumazes, crime contra o qual pouco se faz neste país”.

Quanto aos reflexos da crise econômica mundial, o dirigente acredita que  a dimensão se compare a crise de 1929, o que reduz as taxas de lucro do capital que busca alterar o sistema produtivo, revogando direitos duramente conquistados pelos trabalhadores.

O presidente do PT defendeu maior participação social na definição das políticas nacionais, muito além do voto nas eleições. Para Rui Falcão, é necessário que as políticas públicas sejam definidas com a participação popular, a exemplo de quem deve pagar mais ou menos impostos. “Outro mundo é possível, mas não o do capital, da destruição da natureza, sexismo, xenofobia,  voracidade do lucro, ditaduras com face democrática”, comparou.

O dirigente ressaltou que a união do povo brasileiro é fundamental para promover mudanças que ainda não foram feitas, como repactuar o estado brasileiro, novo sistema tributário, desmilitarização das polícias, descriminalização das drogas, igualdade de gênero, criminalização do racismo, entre outras.

“Precisamos reunir condições políticas para realizar estas mudanças. Mais força, mais luta, mais companheirismo para além dos partidos e das centrais. Não vamos economizar esforços para reunificar militantes, forças, movimentos. Vamos somar nossas forças. Queremos o povo cada vez mais rebelde, porque o povo é mais Brasil”, encerrou