Preconceito racial durante o Fórum demonstra que ainda há muito pelo que lutar

Por Candice Cresqui jornalista

O Fórum Social Mundial retornou a Porto Alegre na edição comemorativa de seus 15 anos. Nesse período pautas importantes avançaram no país, como a redução da miséria e o acesso ao ensino superior. Algumas, no entanto, parecem ter retrocedido como a ameaça à democracia. E outras seguem as mesmas. A opressão policial, a intolerância e o racismo, por exemplo, nos mostram que  ainda há muito pelo que lutar.

Na última quinta-feira, enquanto militantes e ativistas debatiam formas de construir “um outro mundo possível”, Paulo Sérgio Medeiros Barbosa, ativista da Rede Mocambos e palestrante do FSMT, vivia o que há de pior na atual estrutura da sociedade brasileira. Abordado no Parque da Redenção pela polícia em uma atitude racista, ele resistiu e ganhou o apoio de centenas de manifestantes que denunciaram a agressão, e de certa forma venceram a intolerância. A história de Barbosa foi levada ao palco do Auditório Araújo Vianna pelo sociólogo português Boaventura de Sousa Santos, convidado para a mesa “Democracia Econômica”, que integrou a programação do Fórum.

“Isso só ocorreu porque ele é negro e nada mais. O que o salvou foi a sua dignidade e o fato de que os ativistas do Fórum Social Mundial perceberam, cercaram a polícia e de alguma maneira a desarmaram”, contou Santos. Chamado ao microfone, Barbosa deu um depoimento emocionante sobre a violência diária sofrida por homens e mulheres negros no Brasil.

“Eu vivo em atitude suspeita desde que nasci. Desde que os meus ancestrais vieram da África. E foi disso que me acusaram. Identifique-se! Me identifiquei. Vamos para o cantinho conversar?! Não vou! Não vou, porque não quero apanhar. Já apanhei muito da polícia na minha vida. Hoje não apanho mais. Sou professor”. Para ele, o fato é mais que lamentável, é cotidiano. “Sou suspeito quando vou ao banheiro, sou suspeito quando atravesso a rua, sou suspeito quando vou pegar um táxi, sou suspeito quando pego um ônibus”, relatou.

A plateia, formada por pessoas de todas as cores, gritou palavras de ordem pedindo a desmilitarização da polícia. Pedido que foi reforçado por Barbosa: “O Estado Democrático de Direito não pode conviver com essa polícia. Estou vindo agora da delegacia porque fui registrar uma queixa por racismo institucional”, afirmou o gaúcho, atualmente residente em Pernambuco.

Santos lamentou que em 99,9% das situações “nem os jovens negros, nem o povo indígena desse país, têm à sua volta 300 pessoas, nem 30, nem três, quando são vítimas de brutalidade”. E defendeu que é preciso pensar em formas democraticamente organizadas da sociedade para que “não tenhamos que estar fisicamente presentes para haver princípios democráticos de respeito à pessoa humana. Porque isso está acima da cor da pele, acima de ideologias”.

Economia popular e democrática
Entre essas formas democráticas de se viver está a economia solidária, tema principal da mesa. Antes da intervenção do sociólogo português, ativistas por uma economia alicerçada em princípios solidários, coletivos e humanistas relataram experiências e reivindicaram a manutenção da Secretaria Nacional da Economia Solidária.

Segundo o coordenador da pasta, Paul Singer, a economia solidária foi criada como uma tentativa para se chegar a uma democracia popular, onde os meios de produção são daqueles que usam suas forças e seus recursos para produzir o que é essencial a todos os outros cidadãos. Para ele, o socialismo viável nos próximos anos é “basicamente socializar a terra, os recursos naturais, minerais, e, sobretudo, o sistema de administração desses recursos. Porque eles são de todos”.

Na mesma direção, Santos afirma que o capitalismo e a democracia são incompatíveis, por isso a convivência entre esses sistemas é tensa. Segundo ele, a evolução do capitalismo nos últimos 15 anos demostra uma nova estrutura de domínio do grande capital e implica em novas estratégias de combate. “A democracia foi sequestrada pelos democratas. Não é preciso mais ditaduras. O capital financeiro sabe esvaziar por dentro as democracias, sabe dominá-las. E isso nós podemos ver nos golpes parlamentares”, alertou citando os casos da Venezuela e do Brasil. A importância de fortalecer a democracia, afirmou, se dá porque o capitalismo não atua sozinho, “ele atua ao lado do patriarcado e do coronelismo, ou seja, ao lado do racismo e do sexismo”. E é contra isso que a democracia deve resistir, concluiu.

Foto Tiago Silveira