31 de março: ato histórico marca luta contra o golpe

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Defesa da democracia, direitos e contra o golpe dá mais um passo firme com ato histórico na Esquina Democrática em Porto Alegre

Se tem um lugar que se pode dizer que simboliza e que serve de resguardo para quem luta contra o golpe e pela democracia em Porto Alegre, este lugar encheu-se, mais uma vez, de povo para celebrar a resistência na quinta-feira, 31 de março. Se tem um dia que este lugar deve ser ocupado todos os anos é exatamente no último dia de março de todos os anos. Exatos 52 anos depois de um Golpe Civil-Militar estancar direitos do país, em 1964, a Esquina Democrática, no Centro Histórico de Porto Alegre, voltou a reunir milhares de pessoas para celebrar a resistência, a solidariedade de movimentos sociais e de partidos políticos para reafirmar a luta contra o golpe, que tem o processo de impeachment à presidenta Dilma Rousseff como cortina de fumaça, para retirar direitos sociais e conquistas dos trabalhadores.

A quinta-feira foi histórica para os gaúchos e para o Brasil.  A jornada de lutas da Frente Brasil Popular deu mais um passo firme ante a ameaça de retrocesso que ronda a democracia brasileira. Segundo a organização, 80 mil pessoas participaram do Ato em Defesa da Democracia e contra o golpe.

Quando o anúncio no caminhão de som avisou que estavam abertas as inscrições para as falas no Esquenta do Ato, o calor da massa no chão do encontro das Avenidas dos Andradas e da Borges de Medeiros sinalizou para um grande dia. As falas de integrantes dos movimentos sociais levantaram a massa. Ao coro de “Não vai ter golpe, vai ter luta”, o povo mostrou que não arredaria o pé dali até mostrar que vai resistir e manter a vigília pela defesa da democracia, dos avanços sociais até que o golpismo volte para o lugar de onde nunca deveria sair: o lixo da história.

Às 18h, um ato simbólico emocionou boa parte da multidão. A locutora desafiou homens e mulheres a olharem fixamente nos olhos da mulher que estivesse mais próxima. Fez-se silêncio por alguns segundos. Tempo suficiente para que ela narrasse o motivo do ato. “Olha nos olhos. Bota a mão no ombro para dizermos a Dilma que, nós mulheres, trabalhadores, trabalhadoras, lutadores deste povo, estamos contigo.”

De cima do caminhão, era possível ter uma dimensão do tamanho da aglomeração de povo e do calor que emanava da multidão. O caminhão de som estava centralizado na Esquina Democrática. De um lado a outra da Avenida dos Andradas, a Rua da Praia, era possível ver gente se espalhando e a preencher uma quadra para cada um dos lados da lateral do caminhão de som. Na Borges de Medeiros, a visão de povo beirava a sede da Prefeitura e se estendia, para o lado oposto, até se perder de vista pela Borges de Medeiros em direção à Cidade Baixa.

“Esta data é muito simbólica porque foi neste dia, há 52 anos, que a nossa democracia sofreu um golpe militar. Em 1964. Não vamos deixar que nenhum golpe aconteça de novo em nosso país, seja ele militar, jurídico ou midiático. Não basta dizermos não ao impeachment. Temos que barrar o retrocesso”, disse Rejane Aretz, do Comitê das Mulheres contra o Golpe e em Defesa da Legalidade.

O vice-presidente do Rio Grande do Sul da União Nacional dos Estudantes (UNE), Giovani Culau lembrou de alguns dos motivos que levam a elite brasileira a se engajar na luta pelo golpe por meio do impeachment sem nenhum crime. “O que os move (a elite) não é o combate à corrupção. As conquistas os indignam porque eles não suportam ver o pobre, o preto e o indígena invadindo a universidade brasileira”, discursou.

Integrante da coordenação do MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra), Emerson Giacomelli, disse que o momento no Brasil era muito especial por conta da luta de classes que se voltava a travar de forma mais clara. “Precisamos dormir um pouco menos. Temos que nos multiplicar. O que está em jogo não é só o golpe, mas as conquistas que o governo Dilma nos trouxe”, defendeu Giacomelli.

Defesa da unidade entre partidos da esquerda

Se havia dúvida de que partidos de esquerda poderiam falar a mesma linguagem em defesa da democracia e contra o golpe, a quinta-feira histórica tratou de afastar. A integrante da executiva nacional do PSOL, Berna Menezes, deixou claro o apoio da sigla ao movimento em nível nacional. “Lula e Dilma não estão sendo julgados por aquilo que fizeram de errado, mas pelo que fizeram de certo. Precisamos avançar. É preciso regular a mídia, auditar a dívida interna e procurar uma saída à esquerda”, salientou Berna.

A deputada estadual Manuela D’Ávila levantou a multidão com a relação que fez entre o amor, a alegria e a luta pela democracia. “Aqui não tem gente de luto. Quem está de luto neste país são aqueles que perderam a eleição. O golpe se moderniza. É o golpe do judiciário, de quem não tem a alegria e o amor que cada um de nós representa”, afirmou.

Tomado de emoção e discursando como se estivesse falando ao ouvido de cada um dos presentes, o presidente estadual do PT do Rio Grande do Sul, Ary Vanazzi, pegou o microfone quando já era noite. Ele reconheceu erros do PT, que o partido tem que aprender com seus erros e propôs que as agendas dos partidos de esquerda se unifiquem na defesa da democracia e contra o golpe. “Temos milhares de homens e mulheres neste país que vão resistir e já estão resistindo. Não resolvemos todos os problemas e cometemos algumas cagadas. Temos que aprender com os nossos erros. Não precisa gostar do PT, não precisa gostar de partido. Mas tem que gostar do Brasil. Vamos construir uma aliança política. Talvez, não vamos ter maioria no Congresso, mas vamos ter maioria nas ruas”, disse Vanazzi, levantando a multidão.

Os discursos seguiram exaltando a importância da luta pela democracia e para mostrar claramente que impeachment é o mesmo que golpe. “Essas elites não são capazes de reconhecer a força do povo. O golpe não é só contra a presidenta Dilma. É um golpe contra os direitos sociais. São mais de 6 milhões de casa entregues pelo Minha Casa Minha Vida, ProUni, Mais Médicos, salário mínimo que teve 80% de aumento real nos últimos anos. Não é este o Brasil que eles querem”, enfatizou o ministro do Trabalho e Previdência Social, Miguel Rossetto.

Críticas a OAB e Famurs contra o golpe

Não foi apenas contra a Rede Globo que a vaia e a lembrança de participação no Golpe Militar de 1964 ajudaram a demarcar a importância daquilo que precisamos fazer para aperfeiçoar a democracia. A multidão cantou várias vezes “A verdade é dura, a Rede Globo apoiou a Ditadura”. Quando ao advogado, ex-conselheiro da Ordem dos Advogados Brasil (OAB-RS) e integrante do Movimento de Advogados e Advogadas pela Legalidade Democrática, Mario Madureira, tomou a palavra, ouviu-se, “A verdade é dura, a OAB apoiou a Ditadura. “A OAB, que é uma entidade que tem no seu estatuto a defesa do estado de direito, tomada por uma oligarquia e sem consulta á base, foi lá apoiar o golpe. E não só apoiar como o promover também”, disse Madureira.

O presidente da Federação das Associações de Municípios do Rio Grande do Sul (Famurs) e prefeito de São João da Urtiga, lembrou de uma figura lendária da política gaúcha e brasileira e que já havia usado a Esquina Democrática como palco para formar a Rede da Legalidade, em 1961, em defesa da posse do vice-presidente Jango Goulart após a renúncia de Jânio Quadros. “Aqui fala um trabalhista por inteiro. Um remanescente de Getúlio Vargas, de Jango Goulart e do imortal Leonel Brizola. Todos remanescentes da Legalidade”, contou.

O preconceito da elite brasileira e o Hino da independência

O presidente da CUT-RS, Claudir Nespolo, reverberou o tom da crítica à Rede Globo se repetiu no refrão “O povo não é bobo, abaixo à Rede Globo”, e naquilo que o dirigente sindical diz que a maior rede privada de TV da América Latina, uma concessão pública, não aceita. “A elite brasileira é preconceituosa e preguiçosa. Essas duas informações que eu vou dar, não são aceitas na Rede Globo nem na RBS. Eles não vão passar nos jornais deles. Eles não têm capacidade de articular um golpe. O núcleo de inteligência deles fica fora do país. O presidente Lula contrariou os interesses internacionais quando instalou aqui o sistema de partilha do pré-sal. A Fiesp embarcou no golpe porque eles viram que só vai avançar a terceirização se derrubarem a Dilma. Nós estamos preparados para uma luta de longo prazo, dona Globo”, destacou Claudir.

O presidente da Central dos Trabalhadores e Trabalhadoras do RS (CTB-RS), Guiomar Vidor, tratou de esclarecer uma falácia discursiva usada por aqueles que defendem o impeachment contra o governo Dilma. “Estamos dando mais uma demonstração de que as elites não vão dar um golpe nos nossos direitos. Os setores golpistas dizem que o impeachment está escrito na Constituição. Mas onde diz que pode impeachment também diz que tem que ter crime de responsabilidade comprovado para pedir impeachment. E a presidenta não cometeu crime nenhum”, explicou Guiomar.

Antes da caminhada em direção ao Largo Zumbi dos Palmares na Cidade Baixa, o ato fez história. Cristopher Goulart, filiado ao PDT, e neto de Jango Goulart, o presidente que havia sido deposto pelo Golpe Militar exatos 52 anos antes, tomou a palavra. De cima do caminhão de som, defendeu a democracia, lembrou do discurso histórico de seu avô, em 13 de março de 1964 na Central do Brasil, no Rio de Janeiro, e terminou cantando versos do Hino da Independência. “Vivemos hoje no Brasil uma situação semelhante a que vivemos quando meu avô era o presidente da república. Impeachment sem crime é golpe. Usurpar das prerrogativas de uma chefe de estado é golpe. Temos de reafirmar a nossa luta pelo estado democrático de direito. Ou ficar a pátria livre. Ou morrer pelo Brasil”, discursou.

“Sabe por que estamos lutando, sabe o que eles acham ruim e sabem por que eles querem fazer um golpe contra a democracia? Porque tem Bolsa Família, tem Minha Casa Minha Vida e muitas outras políticas públicas. Estamos mostrando aqui que realizamos uma luta de unidade e amplitude. Vai ter muito mais gente na rua.”

Jussara Cony – Vereador da PCdoB em Porto Alegre

“Estamos sob um bombardeio de preconceitos contra os trabalhadores e trabalhadoras. A elite brasileira não admite que tenha povo do nosso lado. Reafirmando e lutando pelos nossos direitos, não vamos permitir que tenha golpe na democracia.”

Célio Golin – Militante do Nuances – Grupo pela Livre Expressão Sexual

“Esta é uma data infeliz para a nossa história. O que está em jogo no Brasil é a democracia.”

Tatiana Xavier – Comitê dos Direitos Humanos contra o Golpe

“A democracia é o bem mais caro das nossas vidas. Porque, sem democracia, não temos voto, não temos voz. É nas ruas que vamos disputar corações e mentes. A presidenta Dilma fez a escolha de defender os projetos sociais. Se alguém tem que sair de algum lugar é o golpista Eduardo Cunha”.

Silvana Conte – Liga Brasileira de Lésbicas

“É importante que se diga que, num país como o nosso, onde a nossa jovem democracia está sendo atacada, não podemos vacilar. O nosso compromisso é político, militante e de construção de uma sociedade mais justa e igualitária.”

Luis Alberto Silva – Frente Negra

“Nós, os comunitários, estamos dia a dia, toda a hora, caminhando com o povo da periferia. Andamos pelas vilas levando uma mensagem muito clara: o impeachment da Dilma é um golpe na democracia e um golpe naquilo que já conquistamos. A Dilma não pedalou e não pedala no governo. A Dilma só pedala quando anda de bicicleta.”

Pedro Dias, vice-presidente da Federação Gaúcha das Associações de Moradores (FEGAM-RS)

“os artistas, os músicos, todo o povo da cultura reivindicamos a legalidade, a democracia que todos nós, artistas, lutamos muito para conquistar em 1964. Viemos aqui também deixar o nosso repúdio aos golpistas.”

Edison Costa Marques – Federação dos Trabalhadores na Cultura

“Apesar das críticas que fazemos ao governo Dilma, da necessidade de ampliar as políticas públicas para os jovens e de combater o desemprego dos jovens, estamos aqui para deixar clara nossa posição contra o golpe e pela democracia.”

Cassio Wohlfact – Estudante do Colégio Julio de Castilhos de Porto Alegre

“Hoje é um daqueles dias que valem por anos. Sabemos que um dos elementos que trazem a instabilidade política tem a ver com o pré-sal, com o petróleo. Nos tornamos a segunda maior reserva do mundo. O pré-sal é nosso. A Petrobras é nossa.”

Dary Beck Filho – Federação Unificada dos Petroleiros (FUP)

“O muro caiu. Não dá mais para ficar em cima do muro. É a hora de lutar por um governo popular de verdade. Se tiver golpe, vai ter luta, vai ter resistência.”

João Hermínio Marques – Organização Marighela

“Estamos na luta em defesa da democracia e contra a tentativa de golpe na Esquina Democrática porque aqui, historicamente, se reúnem os lutadores para organizar a resistência.”

Getúlio Vargas Junior – Tesoureiro da Confederação Nacional das Associações de Moradores)

Para nós, impeachment é o mesmo que golpe. A burguesia brasileira já fez as suas exigências. Eles querem concretizar o golpe para acabar com a CLT, com a Previdência Social. Eles querem montar um governo autoritário. Existem diferenças entre nós da esquerda. Isso não impede a unidade da classe trabalhadora.”

Clóvis Oliveira – Centro de Estudos e Debates Socialistas (CEDS)

“Muitos dos que saíram e têm saído às ruas aos domingos, só conseguiram porque vivemos numa democracia. O programa do PMDB, Ponte para o Futuro, é uma ponte para o atraso, para o retrocesso.”

Assis Melo – Deputado Federal do PCdoB