Perguntas aos manifestantes II, por Raul Pont*

No dia 13 de março, mais uma vez, milhares de pessoas foram ao Parcão para protestar contra corrupção no país. Não cem mil com inventou a Zero Hora ou o especialista da BM, que nunca é citado para que se possa testar qual o “achometro” utilizado. Se for a extensão da Goethe, multiplicada por sua largura e considerando quatro pessoas por metro quadrado, o protesto não acabaria só com a corrupção, mas também com uma das mais caras leis da Física sobre a ocupação do espaço.

De qualquer forma, o tema é outro.

O que levou as pessoas ao Parcão foi pedir o impedimento da Presidenta Dilma e a “corrupção que assola o país”? O fervor verde-amarelo dos manifestantes não os desobriga, no entanto, da justificativa racional do evento. E aí a coisa complica.

A Operação Lava Jato e o idolatrado juiz Moro já prenderam e condenaram quase uma centena de pessoas. Mais de 90% destes são os maiores capitalistas do país, donos das maiores empreiteiras como Camargo Correia, OAS, Andrade Gutierrez, UTC, Odebrecht e outras, e seus diretores executivos, intermediários, doleiros e mafiosos em geral. São os grandes corruptores.

É bom lembrar que para haver corrupção alguém é corruptor para ser beneficiado. Do outro lado, os corruptos diretores e altos funcionários da Petrobras que operavam os negócios e controlavam as contas nominais nos paraísos fiscais.

A Operação Lava Jato evidenciou, também, parlamentares e dirigentes partidários, beneficiando-se do esquema através da influência exercida via parlamento ou governos, federal e estaduais, para indicar funcionários de carreira para os postos de direção e decisão.

Estes são poucos, uma minoria nos partidos (PP, PT, PMDB, PSDB) mas que também são responsáveis e devem ser investigados e duramente punidos como os demais.

Salta aos olhos, no entanto, a falta de proporcionalidade, de dosimetria, de racionalidade mínima se o motivo é mesmo atacar a corrupção.

Não teve um cartaz, uma frase, uma camiseta, um gesto contra nenhum dos corruptores nem de suas empresas. Da mesma forma com os diretores da Petrobras, réus e proprietários das contas na Suíça, ou em paraísos fiscais ou como mafiosos como o doleiro Youssef, mais uma vez beneficiado pelo Juiz Moro ao reduzir sua possível pena por delação premiada, como já fez, anos atrás, beneficiando Youssef na grande falcatrua do Banestado. A delação premiada nesta grande negociata só estimulou o doleiro Youssef a continuar no crime.

Sobre isso ou sobre a imensa corrupção no Conselho Administrativo da Receita Federal (CARF) que envolve grandes empresas gaúchas, nem um pio, nem um cartazinho.

Toda a culpa é da Dilma e, claro, do PT.

O deputado Van Hattem (PP) cujo partido tem toda a bancada federal indiciada na Lava Jato é uma das referencias no Parcão e nem fica enrubescido.

A Presidenta Dilma não é investigada, não é indiciada, não praticou nenhum crime de responsabilidade e vira alvo dessa “caça as bruxas”?

Algo precisa explicar essa histeria coletiva, monocórdia, do “fora Dilma”, que num passe de mágica devolverá a alegria para todos.

Se faltaram palavras de ordem e outras bandeiras no Parcão, em artigo na ZH, a sra. Paula Cassol Lima, líder do Movimento Brasil Livre, organizadora do ato, chega a rabiscar alguns argumentos para além do impedimento da Presidenta. Diz a jovem que Dilma “incidiu no art. 9º, inciso 3º (?) da CF? Da LRF? Da LDO? Por delitos fiscais de “pedaladas” e que o BNDES andou financiando obras no exterior.

A juventude pode ter direito a inexperiência, mas não justifica a desinformação, o desconhecimento.

As contas da Presidência de 2014 foram aprovadas peo Congresso e as de 2015 também serão. Não é crime, nem fraude fiscal, um governo prorrogar despesa ou antecipar receitas. Caso contrário, a Paula Lima deveria estar processando o governo Sartori no RS, pois este vem “pedalando” os recursos de hospitais, escolas e até o salário dos funcionários.

Quanto ao BNDES, se a jovem não sabe, essa é uma das principais funções do banco. Abrir créditos para financiar exportação, para financiar obras de empresas brasileiras no exterior. Qual o crime?

O debate que deve nos levar às ruas hoje é o projeto que retira o controle da Petrobrás sobre o pré-sal, é como retomar o emprego com a taxa Selic a 14,25%, é como impedir novas reformas na previdência pública que nos retire direitos, é como garantir recursos para a saúde com um Congresso eleito pelo poder econômico e que não vota a CPMF, tantas outras pautas que estão no Congresso e das quais são sonegadas as informações e os esclarecimentos por uma mídia monopolista e mentirosa a serviço do golpe à democracia.

A maioria esmagadora dos presentes no ato do Parcão não articulam duas frases após o “fora Dilma”. O país tem regras, leis, Constituição. Vamos aboli-las todas?

Sai Dilma entra Temer. Estabiliza o Congresso e a economia brasileira? Saem os dois, entra Cunha na Presidência. Terá que ser rápido antes de ser preso como corrupto na Lava Jato onde já é réu no STF.

Talvez os manifestantes pensem como as três mocinhas bem produzidas fotografadas pela ZH em que elas são contra do PT ao PSDB e até ao PQP, que a terceira ostentava. Como não há registro deste no TSE, podemos deduzir que se tratava da que pariu mesmo. É o padrão da indigência mental mobilizado pela Globo para as pessoas virem exercitar sua cidadania nas ruas.

Raul Pont

professor e ex-deputado