Lula para Michel Temer: ‘Quer ser presidente? Dispute eleição’

Lula ato abc

De Rede Brasil Atual

O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva fez menção direta ao vice Michel Temer, durante ato realizado na noite de desta segunda-feira (4) em São Bernardo do Campo, na região do ABC paulista, fazendo referência a possíveis pretensões do peemedebista de assumir a Presidência da República em caso de impeachment de Dilma Rousseff. “Eu não tenho nada contra o Michel Temer. Você quer ser presidente da República. Disputa eleição, meu filho. Esse negócio de encurtar o caminho para chegar lá não dá certo”, afirmou Lula quase ao final da manifestação, pouco antes das 21h.

A referência a Temer foi feita em meio a alusões pela democracia e contra o que os manifestantes chamam de golpe contra o governo. “A Dilma não cometeu nenhum crime de responsabilidade. Eles estão cometendo crime de responsabilidade porque querem chegar ao poder sem disputar eleição”, disse o ex-presidente, para quem a oposição passou a “infernizar a vida deste país” a partir do momento em que perdeu a eleição em 2014 e não aceitou o resultado. “O que eles estão fazendo é não deixar a Dilma governar, é criar todo tipo de caso na perspectiva de criar o caos. Estão destilando ódio.”

Mas Lula também admitiu a necessidade de mudanças para recuperar o crescimento e a “alegria” no Brasil. “Temos de saber que é preciso dar uma certa consertada na política econômica. É preciso”, afirmou. Para o ex-presidente, um governo deve “conversar com o mercado” e fazer política, “mas o nosso mercado é o povo trabalhador, o povo consumidor, a dona de casa”. Segundo ele, não adianta tentar “agradar” o mercado (financeiro). “Quanto mais agrada, mais sai capa de revista batendo na gente. Eles não querem agrado, querem derrubar o governo.”

Recuperação
Lula também questionou o presidente da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), Paulo Skaf, um dos líderes do movimento pelo impeachment. Segundo ele, cabe ao movimento sindical questionar a Fiesp se os recursos usados para a ampla propaganda paga publicada em vários meios de comunicação vêm do chamado Sistema S.

Durante o discurso de 35 minutos diante da sede do Sindicato dos Metalúrgicos, do qual já foi presidente, Lula disse que aparentemente “os setores conservadores já se cansaram da democracia”, por causa da “revolução social” implementada a partir de seu governo. “A democracia seria boa se eles ficassem a vida inteira (no poder). O que deixa eles horrorizados é a possibilidade de o Lula voltar em 2018″, afirmou, citando itens como a política de valorização do salário mínimo, incremento das exportações, expansão do mercado interno, apoio à microeconomia, crédito consignado e agricultura familiar.

Mas ele também lembrou que a mesma categoria metalúrgica, que teve crescimento do emprego e do salário em anos anteriores, vem perdendo novamente. “É preciso recuperar”, afirmou. “Acho que tem muito peão dentro da fábrica nervoso com o nosso governo”, disse Lula, para acrescentar que, “neste momento, a Dilma está precisando do povo brasileiro”.

O ex-presidente disse que continua sendo o “Lulinha paz e amor” e que pretende conversar com a sociedade, caso seja confirmado como ministro da Casa Civil – a sua posse está suspensa por decisão liminar do Supremo Tribunal Federal. “O povo está indo para a rua, e a gente vai segurar o mandato da presidenta Dilma legalmente. Se eu voltar para o governo, quero que vocês saibam o seguinte: vamos voltar a conversar com o movimento social, a gente vai voltar a criar espaço de conversar”, disse Lula, acrescentando que vai “conversar mais do que bicho ruim”.

Ele também criticou a imprensa por “lorotas” como as notícias que o relacionam como dono de um apartamento no Guarujá, litoral sul paulista, e de um sítio em Atibaia, no interior. “Inventem as lorotas que quiserem, um dia vão ter de provar, vão ter de me dar o apartamento, a chácara. Só quero que peçam desculpas ao povo brasileiro pela quantidade de mentiras que é colocada todos os dias nos meios de comunicação.”

Também participaram do ato os prefeitos Luiz Marinho (São Bernardo), Carlos Grana (Santo André) e Donisete Braga (Mauá). O presidente da CUT, Vagner Freitas, chamou Temer e Skaf de “golpistas” e pediu vaias para o presidente da Fiesp. A manifestação foi organizada pela Frente ABC contra o Golpe, que reúne sindicatos e movimentos sociais.

Manifesto
O ato começou por volta das 19h desta segunda-feira (4), diante da sede do Sindicato dos Metalúrgicos. Depois de apresentações musicais, a manifestação começou com a leitura e aprovação de um manifesto, no qual a frente afirma que as forças derrotadas na eleição de 2014 “não acatam a soberana vontade popular” e tentam interromper o mandato de Dilma. “Ao mesmo tempo, buscam atingir o ex-presidente Lula, símbolo da ascensão social da classe trabalhadora”, afirmam as entidades, apontando violação de privacidade e cerceamento do amplo direito de defesa, com apoio de uma “parcela tendenciosa do Judiciário”.

O dirigente do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) Gilmar Mauro defendeu a “radicalização da democracia”, por meio de “participação e poder popular”. “Enquanto eles destilam ódio, falta conteúdo para debater a democracia, o Brasil, os problemas do povo”, afirmou.