A tenuidade do limite entre o verdadeiro e o falso

O atual momento histórico, caracterizado pelas relações líquidas e pelas denominadas redes sociais, que desassociam e  cultivam o caos; impôs profundas alterações e provoca uma relação limítrofe entre o verdadeiro e o falso. A dinâmica virtual, a instantaneidade dos acontecimentos, a realidade estabelecida por um padrão de convívio que aniquila, gradativamente, a relação face a face, que favorece o “fake news” e as ondas de versões inverídicas, parciais, geralmente incompletas e generalistas, constituem elementos responsáveis pelo avanço dos comportamentos movidos pelo ódio e pela intolerância.

Nesta ambiência, os direitos caminham para a falência. Os sentimentos vão se tornando inabitual. Conceitos são desvalorizados. Os discursos se dissociam das práticas. A normalização de todo tipo de desrespeito evidencia uma postura ofensiva, movimentada pela impaciência, onde o saber ouvir vai se fazendo raro. O modelo relacional, baseado na premissa original de construção coletiva, embora não totalmente ausente nos inflamados discursos, caminha para a extinção. Este ensejo alimenta a desesperança e promove deletérias deformações, capazes de arruinar até mesmo aqueles que percebem a importância de uma atuação ética, estratégica e competitiva.

Estamos diante de profundos retrocessos. Nossas contradições foram alimentando nossos antagonismos. A velocidade dos acontecimentos, os mapas dos algoritmos, as fazendas formadas por robôs, foi nos arrastando para o canto do ringue. A busca infrutífera por justificativas que apontem para as causas responsáveis por todas as mazelas desconsidera a questão primária, de origem, fundada na filosofia antropológica de formação do Brasil, para lembrar Marilena Chauí.

Precisamos resistir. O padrão de indignação social exige a nossa ressignificação. Nossas reações não podem seguir o padrão comportamental e relacional de nossos antagonistas, sob pena de aderirmos, ainda que de forma pouco consciente, aos seus padrões de conduta. Nossa motivação deve resgatar a capacidade de construção de um modelo baseado na justiça social. Para tanto, é inaceitável atitudes movidas por injustiças, indelicadezas e desprezo pelo sentimento alheio. É fundamental restabelecer os vínculos com o genuíno, com o verdadeiro, abandonando as destrutivas premissas do falso, que nos direciona à perigosa e restritiva via da concentração da razão e das oportunidades.

Zelmute Marten
Jornalista
Chefe de Gabinete – Deputado Estadual Zé Nunes